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| Ernest Hemingway, 1952/Photo © Earl Theisen Collection/Getty Images |
Escreva toda histĂłria como se fosse um filme de suspense. Essa Ă© uma das lições mais importantes na escrita cinematográfica. Costurar uma histĂłria para dentro, sem deixar pontas soltas Ă© de longe, a tarefa mais sofisticada do roteirista. Essa equação nĂŁo Ă© restrita aos filmes de terror ou suspense. Tal ferramenta Ă© válida para todos os gĂŞneros, pois como se sabe, um roteiro Ă© construĂdo com mistĂ©rios e revelações. Para dominar essa dinâmica Ă© preciso recorrer aos mestres.
Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.
Federico GarcĂa Lorca
Alfred Hitchcock Ă© considerado o "pai do suspense" no cinema por contar uma histĂłria com genialidade atravĂ©s do mistĂ©rio. Ao nĂŁo entregar a narrativa, Alfred convida os espectadores para participarem da viagem visual. Muito já se disse sobre Hitchock e sua forma de fazer cinema já Ă© um cânone. É por isso que suas obras atuam como ferramentas para novos escritores e roteiristas. Alfred era um grande conhecedor da escrita cinemática, pois atuava como um trabalhador do cinema. Talvez por isso construiu filmes tĂŁo inovadores e populares. Ele estava dentro do jogo. Mas o que deve ser apreendido do seu processo de criação Ă© que ele sabia esconder a histĂłria. Esse mecanismo Ă© muito importante no roteiro, pois Ă© a segurança de que, alĂ©m de estrutura, a histĂłria terá potencial para se desenvolver dentro de um formato. É um exercĂcio poderoso, sobretudo para um pĂşblico acostumado a ter tudo entregue. A narrativa da novela Ă© altamente prolixa e detalhista, e existem motivos relevantes para que isso ocorra. O que nĂŁo pode acontecer Ă© ter esse modelo de comunicação nos filmes. Cuidado: um filme prolixo pode ser texto de teatro.
Estilo Ă© plagiar a si mesmo.
Alfred Hitchcock
Seguindo os ensinamentos dos mestres, Ernest Hemingway Ă© outro pilar fundamental para criação de roteiros com densidade narrativa. Ele se destaca como um dos maiores e mais influentes escritores do sĂ©culo XX e se sobressai dentre outras qualidades, por dominar a tĂ©cnica da sĂntese. Ernest afirmava que a prática da escrita lhe ajudou a desenvolver uma forma de escrever que lhe proporcionou uma qualidade máxima de intensidade e tom, mesmo com o mĂnimo possĂvel. Foi com esse trabalho que o escritor desenvolveu a "Teoria do Iceberg", conforme explica em "The Art of the Short Story":
"Há algumas coisas que eu encontrei para ser verdadeiro. Se você deixar as coisas importantes ou eventos que você conhece, a história é reforçada. Se você deixar ou ignorar algo, porque não o sabe, a história se torna inútil."
"Querer fazer frases bonitas é tão miserável como querer ser coerente"
Rubem Fonseca
Ernest Hemingway explica que ao esconder a histĂłria, envolvendo o leitor na dinâmica do mistĂ©rio, a narrativa ganha força para gerar comoção. Isso Ă© o que ele diz ser "verdadeiro". Em relação Ă construção, Ernest se comporta de uma forma muito parecida com o mecanismo de pensamento de Allan Poe. Em "A Filosofia da Composição" (1846) o "mago do terror" afirma que a escrita Ă© calculada. Tanto Poe quanto Ernest constroem a narrativa de maneira arquitetada, afim de apontar para uma composição que faça sentido, tenha lĂłgica e sustente um argumento. Esse Ă© o mesmo raciocĂnio para o roteiro cinematográfico. Nenhuma ação inserida deve ser desmotivada. Cada palavra possui uma força que acena para um rumo, um destino, que em escrita cinemática denomina-se clĂmax: o resultado-esperado-construĂdo. E assim segue a teoria. Um iceberg sĂł deixa Ă mostra 1/8 de seu corpo. Isso significa que muita estrutura está escondida abaixo do mar. O mesmo deve ser na histĂłria de um roteirista. Deve-se escrever a ponto de gerar curiosidade para se desbravar o que está nas profundezas. Diante disso, o roteirista pode revelar mais ou menos, dependendo do tom de sua narrativa, para guiar o olhar de seus espectadores.
"Quando as coisas se tornam difĂceis, isto Ă© o que vocĂŞ deve fazer: uma boa arte".
Neil Gaiman
A teoria de Ernest Hemingway tambĂ©m foi conhecida como "teoria da omissĂŁo", onde o texto escrito aponta para ângulos diferentes. Dessa maneira, o leitor poderá fazer sua avaliação da histĂłria contada. É a chamada narrativa multidimensional, na qual há a "participação" de quem lĂŞ. Essa compreensĂŁo sensitiva oferece mais bagagem para que a equipe audiovisual faça escolhas corretas e dĂŞ valor cinematográfico Ă obra. O que se posiciona na teoria Ă© a intensidade escolhida por Ernest para escrever histĂłrias verdadeiramente envolventes. No fim, o exercĂcio está dito: a escrita Ă© um iceberg, no qual as palavras estĂŁo emersas, apenas Ă vista, e a imaginação do pĂşblico mergulhadas no mar da criatividade.
