![]() |
| Na foto, lembranças da minha atuação na Pastoral da Juventude e no Conselho Municipal de Juventude de Muqui |
No ano em que Jair Bolsonaro
assume o poder como Presidente do Brasil, a Igreja Católica lança a sua Campanha
da Fraternidade com o tema “Fraternidade e PolĂticas PĂşblicas”. No inĂcio de
fevereiro, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) liderado pelo Ministro
Chefe Augusto Heleno declarou que o trabalho da Igreja em defender a situação
da AmazĂ´nia Ă© “preocupante”. Segundo
informações veiculadas à época, escritórios da Agência Brasileira de
Inteligência estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões e eventos
catĂłlicos em parĂłquias e dioceses. A ideia Ă© evitar crĂticas ao governo e neutralizar
ações progressistas entendidas como “uma agenda de esquerda”.
As declarações repercutiram de
forma negativa. Bolsonaro está preocupado com os movimentos católicos, pois foi
nesse campo social que o PT surgiu. O Partido dos Trabalhadores nasceu sob os
clamores populares, sobretudo entre os sindicais, presentes nas primeiras
Comunidades Eclesiais de Base. TambĂ©m denominadas como “Igreja Viva” ou “Igreja
em SaĂda”, as CEB’s surgiram apĂłs o ConcĂlio Vaticano II, reforma promovida
pela Igreja no ano de 1961. A Igreja CatĂłlica sentiu a necessidade de se
transformar em virtude das mudanças culturais advindas com o século XIX e XX. O
objetivo do ConcĂlio era que a Igreja fosse direcionada aos mais pobres. Essa
dimensĂŁo social repercutiu intensamente na sociedade brasileira de 1961 a 1965,
perĂodo do ConcĂlio, a ponto de nascerem movimentos de articulação polĂtica. A
prática religiosa está ligada com a prática polĂtica. Tanto um campo quanto o
outro visam o bem comum. Entretanto, é sabido que as corrupções humanas infectam as boas intenções. Quando os interesses das ideologias
surgem, a polĂtica no seu melhor sentido sai de cena e a politicagem entra. Foi
assim que se deu com a dita “bancada evangĂ©lica” ao inserir um muro moralista
no debate legislativo. A maioria das pautas defendidas pelos evangélicos trata de questões ideológicas e
do ponto de vista da religiĂŁo e nĂŁo do interesse social. A Igreja CatĂłlica,
mesmo com contaminações ideológicas, sempre se posicionou de maneira ampla,
democrática e pautando uma reflexão à luz do Evangelho. Os temas levantados
pela Igreja e que serĂŁo debatidos ao longo do ano de 2019 se tornam um
obstáculo na agenda liberal de Bolsonaro. A retomada da Campanha do
Desarmamento, a proteção da AmazĂ´nia e dos povos indĂgenas sĂŁo questões
crĂticas ao governo e que nĂŁo se confundem com um posicionamento “esquerdista”,
como muitos dizem.
![]() |
| Imagem de internet propõe uma educação mais ampla e social |
Há uma dificuldade de compreensão
por parte da sociedade brasileira acerca do conceito de direito difuso, Ă quele
que compreende toda a Humanidade. Proteger a água, o solo, o ar, o mar, a flora
e fauna não são prerrogativas partidárias e sim, humanas. É pelo bem de todos.
E quando um governo não enxerga essa realidade primária, perde as condições de
governar democraticamente. Qualquer lĂder polĂtico deve estar aberto ao mais
amplo debate. É o que costumo denominar
de “dimensĂŁo neutra”, ou seja, o agente executivo deve propor a defesa de todas
as vozes possĂveis para que o interesse pĂşblico seja contemplado. De certa
forma, essa dimensĂŁo neutra pode ser aplicada Ă religiĂŁo no caso especĂfico da
Campanha da Fraternidade apresentada pelos catĂłlicos. Nela, a fĂ© sem Deus¹ Ă©
mais virtuosa do que a prática católica. Nos textos apresentados pela
Igreja é defendido o olhar plural e até
a atuação entre os não católicos. Portanto, é esse o mesmo entendimento da
prática polĂtica: o bem social deve ser elevado como interesse máximo,
construĂdo atravĂ©s da participação popular por meio de conselhos, reuniões de
bairro, associações, grupos socioculturais e demais atores.
A Campanha surge num novo momento
social onde as comunidades em redes se articulam a todo instante. Agora, por
conexões presenciais e virtuais, as pessoas debatem, vigiam e constroem narrativas
de muitas e complexas maneiras. A Igreja, assustada com a ideia do avanço de um projeto geopolĂtico das fake news, propõe um trabalho amplo nas bases sociais e
na ação pastoral. Desse modo, os movimentos, as reuniões, celebrações e
projetos de evangelização devem se posicionar nas pequenas comunidades, afim de
que a consciência coletiva em prol dos direitos humanos seja cultivada. Portanto, práticas de educação popular devem se
propagar ao máximo pelo paĂs. Com informação as pessoas poderĂŁo participar do
processo de construção de polĂticas pĂşblicas. SaberĂŁo como acompanhar seus
representantes locais e criarĂŁo meios de interferĂŞncia no processo decisĂłrio,
maior entrave da democracia contemporânea. Em Muqui, cidade localizada ao sul
do EspĂrito Santo, tenho promovido oficinas de teatro, canto e mĂşsica para
aproximar os conceitos da cultura ao dia a dia da população. Nas comunidades
rurais serĂŁo oferecidas oficinas populares de direitos humanos ao decorrer do
ano. Com intuito de irradiar capacitação aos que nunca tiveram a oportunidade
de discutir o tema, as aulas serĂŁo promovidas em parceria com a ParĂłquia SĂŁo
João Batista e o conteúdo será facilitado por jovens advogados, assistentes
sociais e militantes dos direitos humanos. Os encontros terĂŁo uma visĂŁo transdisciplinar
dando destaque aos rebatimentos entre direito e cultura. O objetivo Ă© claro:
difundir a consciĂŞncia coletiva e a reflexĂŁo crĂtica.
![]() |
| Um dos livros mais importantes para entender a formação econômica do Brasil |
Letra e MĂşsica da Campanha da Fraternidade 2019:
Notas:
1 – O pensador francĂŞs Luc Ferry
apresenta em suas obras o conceito de espiritualidade laica.
2 – O principal documento do
ConcĂlio Vaticano II, o “Gaudium et spes”, está disponĂvel em portuguĂŞs no
link: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html


